2 – Metáforas do Desenvolvimento Motor: a montanha do desenvolvimento

Depois de explorar a metáfora da ampulheta triangulada (Goodway et al., 2019), seguimos agora para outra metáfora igualmente importante: a Montanha do Desenvolvimento, proposta por Clark e Metcalfe (2002). Mas, antes de "escalar", vale fazer uma pausa para entender melhor por que usamos metáforas quando falamos de desenvolvimento motor.

Movimentos podem ser vistos, medidos, filmados. Eles são os produtos do desenvolvimento motor. Mas o que acontece “por trás da cena”, dentro do indivíduo, ou o processo de desenvolvimento, é invisível — abstrato, complexo e com muitas nuances. É aí que entram as metáforas: como pontes entre o visível e o invisível, elas nos ajudam a imaginar o que não se pode observar diretamente. Com elas, conseguimos dar forma a algo de difícil acesso.

 

Fig. 01 – Monte Everest

Como já sabemos, o desenvolvimento motor refere-se a mudanças sequenciais e progressivas no comportamento motor ao longo do ciclo de vida, e a metáfora da montanha nos convida a imaginar o desenvolvimento como uma grande jornada rumo ao alto de uma montanha. Desde o instante da concepção, começa a escalada. Mas não é qualquer subida: é como enfrentar o Everest (fig. 01), com seus terrenos variados, climas instáveis e paisagens surpreendentes. Em alguns momentos, o solo é firme e os passos são confiantes; em outros, escorregamos ou precisamos parar para respirar. Isso nos lembra do modelo das restrições (Newell, 1986), que mostra como o desenvolvimento é moldado pela interação entre o indivíduo, o ambiente e a tarefa. Esses três elementos funcionam como condições do terreno: às vezes impulsionam (affordances), às vezes dificultam (limitadores de taxa), mas sempre influenciam o caminho.

A montanha é dividida em períodos (fig. 02) que representam marcos dessa jornada. Começamos no período reflexo, onde predominam os movimentos involuntários. Depois, no período de pré-adaptação, os movimentos voluntários começam a emergir: segurar, rolar, sentar, ficar de pé e caminhar, que é o marco final desse período.


fig. 02 – A montanha do desenvolvimento (Clark & Metcalfe, 2002)

Com a base construída, entramos no período dos padrões motores fundamentais — correr, saltar, arremessar e agarrar. São movimentos que formam a base para habilidades especializadas. Esses padrões, quando explorados e refinados, dão lugar ao período de contexto específico, em que habilidades se adaptam a situações como esportes, danças ou lutas. No topo da montanha está o período habilidoso, em que o domínio motor atinge um nível especializado elevado — mas para chegar lá, a prática é essencial. E a verdade é que nem todos alcançam esse cume: muitas pessoas enfrentam limitações em ultrapassar o perído dos padrões findamentais, o que nos leva a refletir sobre como incentivamos (ou limitamos) essas experiências motoras.

A montanha, porém, não é uma linha reta. Em casos de lesão, envelhecimento ou outras condições, pode haver uma regressão no desempenho. Surge então o período de compensação, em que o corpo reorganiza estratégias, retorna a padrões anteriores e busca novas soluções. Mesmo com perdas, há aprendizado.

Ao observar a ilustração da montanha (fig. 03), notamos uma cordilheira, não uma montanha isolada — uma região de exploração horizontal antes da subida vertical. Isso nos mostra que, antes da especialização, o ideal é vivenciar uma ampla variedade de experiências motoras. Ou seja: é preciso que a criança brinque muito, experimente muito, praticar modalidades diversas. Só depois disso é que se escolhe qual montanha escalar. Alguém que, por exemplo, brincou de correr, saltar, nadar, escalar e dançar, pode decidir se especializar no tênis — e aí começa uma escalada especializada, mais focada, até se tornar habilidoso na modalidade.

Fig. 03 – Não é só subir (z). É necessário explorar a base da montanha (x,y) com experiências de aprendizagem motora diversificadas.

 

Ser habilidoso em várias montanhas? É raro. Até mesmo atletas de elite enfrentam limites ao tentar alcançar o topo em diferentes esportes. Por isso, as experiências iniciais são tão valiosas: elas ampliam o repertório e ajudam a fazer escolhas mais conscientes.

Agora que você já conhece as metáforas da ampulheta e da montanha, talvez queira compará-las. No próximo texto, trarei uma visão comparativa. Mas se quiser começar sua própria análise agora, sinta-se à vontade: imaginar, refletir e criar pontes entre ideias é parte essencial para a compreensão dos nossos movimento.

E você? Já conhecia a metáfora da montanha? Em que parte da escalada você se sente hoje? Que trilhas já percorreu? Compartilhe nos comentários. Vamos fazer trocas e continuar subindo — juntos.

 

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Referências

 

  1. Clark, J. E., & Metcalfe, J. S. (2002). The mountain of motor development: A metaphor. In J. E. Clark & J. H. Humphrey (Eds.), Motor development: Research and reviews (Vol. 2, pp. 163-190). Reston, VA: National Association for Sport and Physical Education.
  2. Goodway, J. D.; Ozmun, J. C.; Gallahue, D. L.; (2019) Understanding motor development: Infants, children, adolescents, adults, 8. ed. Burlington : Jones & Bartlett Learning .
  3. Newell, K. M. (1986). Constraints on the development of coordination. In M. G. Wade & H. T. A. Whiting (Eds.), Motor development in children: Aspects of coordination and control (pp. 341–361). Amsterdam: Martinus Nijhoff. https://doi.org/10.1007/978-94-009-4460-2_19


 

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