Preâmbulo: a “trivialidade” dos movimentos

 

Olá! Eu sou Claudio e te dou as boas vindas ao blog "Movimentar"

Antes de irmos direto ao assunto, permita-me uma breve digressão. Se quiser, pule para o próximo post, mas aviso: talvez você perca uma boa oportunidade de ver o mundo sob outra perspectiva.

"Movimento é vida." Assim começa o livro "Compreendendo o Desenvolvimento Motor", de Gallahue e colaboradores (2013). Uma frase simples, mas poderosa. O curioso é que raramente prestamos atenção ao óbvio. Coisas que nos cercam todos os dias se tornam invisíveis aos nossos olhos, mesmo quando são essenciais. Isso me lembra um livro chamado "Tremendas Trivialidades", de Gilbert K. Chesterton, que recomendo fortemente. Ele nos faz perceber o quanto o extraordinário está escondido nas coisas mais simples.

Pense nisso: quantas vezes você parou para se maravilhar com o ato de respirar? Não falo dos mecanismos complexos da fisiologia, mas do simples fato de encher os pulmões e manter-se vivo. E a água que sai da torneira? Se você já se encantou com essas pequenas maravilhas, parabéns! Mas, normalmente, só notamos sua importância quando elas nos faltam. Como naquele dia quente, de muito trabalho/estudo em que você sonha com um banho refrescante ao chegar em casa, aí você abre a torneira... e nada de água. Frustrante, não? (rs)


 Agora, traga essa ideia para o corpo. Os movimentos são tão presentes que nos acostumamos a eles de forma a quase desconsiderá-los. Deixamos de vê-los como uma "tremenda trivialidade" e passamos a tratá-los como “meras trivialidades”; rotinas automáticas. Mas basta um dedo quebrado para essa percepção mudar. Coisas simples, como preparar uma refeição ou enviar uma mensagem, se tornam desafios. E em situações mais graves, como uma lesão na medula causando uma paraplegia, ou tetraplegia? O impacto é imenso. Afinal, nossos movimentos é que tornam possíveis nossas realizações

 Se ainda não tinha pensado nisso, aqui está: toda a nossa vida é moldada pelos movimentos que temos à disposição. Trabalhar, brincar, jogar, amar, explorar, criar. O ser humano que não se movimenta depende dos movimentos de outros para sobreviver. Como bem afirmaram Schmidt e colaboradores (2019), "nossos movimentos são mais do que uma mera conveniência". Eles são essenciais para a nossa existência.

E é aí que começa a magia da curiosidade (que muitas pessoas estiveram e estão atentas a ela. Ver Clark & Whitall, 1989). Como nos movemos? Como aprendemos novos movimentos? Como eles mudam ao longo da vida?

Basta observar uma criança para perceber. No início, ela mal controla o próprio corpo. Movimentos involuntários, reflexos primitivos, uma fragilidade quase poética. Mas, rapidamente, algo fascinante acontece: ela levanta a cabeça, balança os bracinhos, senta, engatinha, fica em pé, anda e corre por aí. De um ser "molinho" surge um explorador incansável, ávido por tocar o mundo. Isso é incrível! E a criança sabe disso — por isso, não para de se movimentar. A autonomia motora permite a ela explorar o mundo que antes lhe era restrito (inclusive, dá um trabalho... rs).

Depois, continuamos evoluindo: aprendemos a escrever, desenhar, andar de bicicleta, dançar, praticar esportes. Quem nunca ficou boquiaberto diante de uma acrobacia na ginástica em que a atleta parece flutuar, desafiando a lei da gravidade. E vem aquela exclamação: Oh!! O homem conseguiu construir estruturas que simulam processos cognitivos com precisão imensa (as IAs!), mas, até hoje, ainda não existe um sistema que replique o refinamento e a versatilidade dos nossos movimentos.

Um dia,entretanto, percebemos que algo mudou. Os movimentos já não são tão ágeis. Levantar da cadeira requer mais esforço, os passos ficam mais curtos, ao invés de uma raquete, às vezes uma bengala. É o envelhecimento. O organismo entre em processo de degeneração. Mas será isso um declínio? Ou uma nova forma de desenvolvimento? O corpo muda, mas o potencial de transformação permanece. O movimento não desaparece; ele se reinventa. O que acontece em cada fase da vida? Quais são as possibilidades em cada etapa? Como podemos, enquanto professores, treinadores, pais ou cuidadores, promover o melhor desse potencial?

É exatamente sobre isso que vamos conversar: o "DESENVOLVIMENTO MOTOR". Essa incrível capacidade que, por ser tão evidente, às vezes passa despercebida — como os óculos perdidos no próprio rosto. Mas não se preocupe: vamos explorá-lo juntos, com curiosidade e encantamento. Afinal, "Movimento é vida."

E você, o que pensa sobre isso? Compartilhe suas ideias nos comentários. Vamos conversar!

 

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REFERÊNCIAS:

Clark, J. E., & Whitall, J. (1989). What is motor development? The lessons of history. Quest, 41(3), 183–202. doi:10.1080/00336297.1989.10483969

Gallahue D.L., Ozmun J.C. & Goodway, J.D. Compreendendo o Desenvolvimento Motor, 7ºed., Porto Alegre: Artmed, 2013.

Schmidt et al. (2019). Motor Control and learning: a behavioral emphasis (6th ed.). Human Kinetics.

Imagem do andador - Um passo de cada vez foto de The Yuri Arcurs Collection

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