1 – Metáforas do Desenvolvimento Motor: a ampulheta triangulada


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O desenvolvimento motor (DM) é um fenômeno fascinante, um processo dinâmico que revela as transformações sequenciais e progressivas do comportamento motor ao longo da vida — desde a vida intrauterina até a morte (Gallahue et al., 2013). Diversos estudiosos investigaram esse processo, e encontraram padrões e regularidades que permitem identificar fases e estágios característicos. Mas como traduzir e apresentar esse conhecimento? Duas metáforas bastante atuais foram elaboradas na tentativa de ilustrar o processo de desenvolvimento: a Montanha do Desenvolvimento (Clark & Metcalfe, 2002) e a Ampulheta Triangulada (Goodway et al., 2020).

Essas metáforas não são somente esquemas ilustrativos; são lentes que nos permitem acessar algo que muitas vezes é abstrato e de difícil visualização. No caso da ampulheta, ela é inicialmente preparada, ou enchida, com a areia que simboliza o fluxo contínuo da vida motora. Proposta inicialmente por Gallahue em 1982 e refinada até sua versão mais recente (Goodway et al., 2020), essa metáfora fornece uma visão sistematizada do desenvolvimento motor de forma elegante que permite também avaliá-lo e, consequentemente, verificar a efetividade de programas de intervenção (falarei de intervenção em outro momento.).


Fig. 1: Visão geral da ampulheta triangulada. (adaptada de Goodway et al., 2020)

Na figura 1, vemos a ampulheta triangulada sendo preenchida com a "areia da vida motora". Dois jarros alimentam essa ampulheta: o da hereditariedade, com uma tampa que simboliza suas características fixas, e o do ambiente, sem tampa, aberto a múltiplas possibilidades. O DM sempre ocorrerá a partir da interação destes dois conjuntos de fatores. Isso é muito importante de ser entendido, e é um equívoco pensar o desenvolvimento a partir de aspectos individuais ou ambientais isoladamente.

Ao fundo da ampulheta, observa-se o triângulo do modelo das restrições (Newell, 1986). Ele fortalece o carácter dinâmico e interacionista do DM, e o refina detalhando os aspectos de influência como as características do indivíduo, da tarefa específica ser realizada, e do ambiente em que o indivíduo realizará essa tarefa.  A areia que se mistura reflete a natureza dinâmica e auto-organizada do desenvolvimento motor. Apesar de haver padrões e regularidades no processo, não há uma receita fixa, mas sim um balé entre esses fatores que dançam em harmonia (ou, por vezes, em descompasso), e proporcionam o desenvolvimento.

Conforme a ampulheta se enche, as possibilidades motoras se expandem. O DM começa com a fase de movimentos reflexo , em que são observados movimentos não intencionais estereotipados e espontâneos. Depois, esse movimentos vão cedendo lugar aos primeiros movimentos voluntários denominados rudimentares  (ex. arrastar, sentar, engatinhar), que culminam com o andar independente. Posteriormente, surgem os movimentos fundamentais que são habilidades já bastante sofisticadas (ex. correr, arremessar, chutar) que formarão a base para a participação nas atividades da cultura de movimento (ex. esportes, danças, lutas), e presentes na fase dos movimentos especializados. Os movimentos especializados são os padrões motores mais complexos presentes nos diversos contextos de intervenção motora do homem. Seguimos um percurso de movimentos estereotipados e involuntários para padrões cada vez mais complexos e adaptáveis.

Na figura 2, entramos nos detalhes das fases e estágios. A leitura da ampulheta é de baixo para cima: começamos no centro (fases), seguimos para a direita (estágios) e, por fim, para a esquerda (faixas etárias aproximadas). As fases de desenvolvimento ilustradas e os estágios dentro das fases ilustram a condição sequencial e progressiva do desenvolvimento. Importante: o desenvolvimento é sequencial, mas não rigidamente linear. As fases se conectam com transições flexíveis, representadas por linhas pontilhadas entre elas. Isso significa que o DM não é uma escada reta, mas, que apesar da regularidade, é um percurso cheio de possibilidades, com atalhos e desvios. As fases de desenvolvimento acontecem conforme o ritmo de cada indivíduo (ex. maturação) e as possibilidades do ambiente em que ele se encontra (ex. estimulação).

 

Fig. 2: Fases e estágios do desenvolvimento motor. (adaptada de Goodway et al., 2020)


 Um marco indicado nessa metáfora, e que eu, particularmente, gosto muito, ocorre por volta dos 14 anos, quando a ampulheta está "cheia". Ele não significa o fim do desenvolvimento, mas uma mudança de foco: da aquisição de novas habilidades para o refinamento e uso daquelas já consolidadas. Nesse ponto, a ampulheta é virada e assume a disposição da figura 3.

 

Fig. 3: Após ter sido enchida, a ampulheta é virada.
Os elementos motores adquiridos servirão de base para o desenvolvimento subsequente.
(adaptada de Goodway et al., 2020)

Neste momento, o que foi acumulado serve de base para a motricidade na vida adulta e no envelhecimento. O escoamento da areia reflete o uso, a manutenção e, por vezes, a perda de habilidades, influenciado por escolhas de estilo de vida e fatores biológicos (hereditários). Ainda há espaço para aprender e mudar os padrões motores, mas em um ritmo e condições diferentes. Na juventude, o desenvolvimento é acompanhado de melhoria do desempenho, enquanto no envelhecimento, a partir de 50/60 anos, o desenvolvimento ocorrerá junto a perdas de desempenho, e será demosntrado a partir da entativa de compensações para lidar com um organismo que entra em processo de degeneração.

Em resumo, a ampulheta triangulada é mais do que uma ilustração; é uma lente para enxergar o desenvolvimento motor como um processo interativo, dinâmico e adaptativo. Compreendê-la, entendendo cada uma das fase e os processos envolvidos no DM nos permite investigar, analisar, intervir e promover de forma consciente e efetiva no DM seja de crianças, adultos ou idosos. A intervenção será apresentada em outros textos.

Antes de passarmos à montanha do desenvolvimento e de avançarmos para os padrões motores de cada fase, vale lembrar que tanto a metáfora da ampulheta quanto a da montanha apresentam uma referência para o desenvolvimento típico. Crianças com condições específicas (como síndrome de Down, TEA ou deficiências físicas/sensoriais) apresentam trajetórias singulares, que merecem olhares igualmente singulares e que talvez escapem dessas duas metáforas.

No próximo texto vamos à metáfora da Montanha!

E você, o que pensa sobre isso? Já conhecia Ampulheta triangulada? Compartilhe suas ideias nos comentários. Vamos conversar!

 Próximo: a montanha do desenvolvimento

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Referências

 

  1. Clark, J. E., & Metcalfe, J. S. (2002). The mountain of motor development: A metaphor. In J. E. Clark & J. H. Humphrey (Eds.), Motor development: Research and reviews (Vol. 2, pp. 163-190). Reston, VA: National Association for Sport and Physical Education.
  2. Gallahue D.L.; Ozmun J.C.; Goodway, J.D. Compreendendo o Desenvolvimento Motor, 7ºed., Porto Alegre: Artmed, 2013.
  3. Goodway, J. D.; Ozmun, J. C.; Gallahue, D. L.; (2020) Understanding motor development: Infants, children, adolescents, adults, 8. ed. Burlington : Jones & Bartlett Learning .

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