3 - Períodos motores: movimentos reflexos

 
 
 
Vamos começar a desbravar o processo de desenvolvimento motor! Quem nunca ouviu uma mãe grávida falar que o bebê está chutando? E o maravilhamento que isso provoca: “Está chutando!” Logo surgem as especulações: “Chuta muito, vai ser menino, já está querendo jogar futebol!” (rs). Bem, se vai ser menino ou não; se vai jogar futebol ou não, não podemos dizer. O que é evidente é que os primeiros padrões motores — do período reflexo — já estão se manifestando (Fig. 01). Este período começa por volta dos três meses de gestação e vai até o fim do primeiro ano de vida. 
 
Fig. 1 – Ilustração adaptada da montanha do desenvolvimento (Clark & Metcalfe, 2002) com destaque do período dos movimentos reflexos.

 

Os movimentos dessa fase são de dois tipos: espontâneos e reflexos propriamente ditos (Fig. 02). Ambos são involuntários (não intencionais) e estereotipados (ocorrem sempre da mesma forma).

 

Fig. 2 – Exemplos de movimentos do período reflexo. 1. Movimento espontâneo da língua, 2. Reflexo da marcha, 3. Reflexo de moro, 4. Reflexo de sucção (aqui estimulado pelo próprio bebê).

Os movimentos espontâneos surgem sem estímulo externo e sem relação com o ambiente. É comum vermos bebês empurrando as pernas alternadamente, balançando os braços ou movimentando a boca como se balbuciassem, ou colocando e retirando a língua. Parece proposital, mas não é. “Olha, ele está fazendo língua pra mim!” — Não, ele não está fazendo língua para você; está apenas realizando um movimento espontâneo. 

Enquanto os movimentos espontâneos ocorrem sem relação com o contexto, os movimentos reflexos são sempre resposta a estímulos externos, e dividem-se em reflexos posturais e reflexos primitivos. Os posturais ajudam na orientação do corpo no espaço e contra a gravidade. Um exemplo é o reflexo da marcha: quando o bebê, com apoio, encosta os pés no chão, ele flexiona e estende as pernas como se estivesse andando. Quando o estímulo cessa, o movimento também cessa.

Os reflexos primitivos estão ligados à sobrevivência — como o reflexo de sucção (ao tocar a boca, o bebê suga – alimentação) e o reflexo de Moro (ao sentir que está caindo, o bebê abre e fecha os braços – proteção). O reflexo de Moro pode ser provocado ao apoiar o bebê no antebraço e simular uma queda. 

Mesmo involuntários e estereotipados, os movimentos do período reflexo são essenciais para o desenvolvimento motor. Três aspectos importantes: 

1. Iniciam o “diálogo” do bebê com o mundo e ajudam a estabelecer relações sensório-motoras básicas, que envolvem a interação entre informações sensoriais (visuais, táteis, sinestésicas, etc.) e a produção de movimentos. Por exemplo, a relação entre a força na mão e a pressão de objetos, ou entre a informação visual e a posição do corpo no espaço. 

2. Promovem o fortalecimento muscular, e contribuem para a formação de sinergias musculares – conjuntos funcionais de músculos e articulações que trabalham de maneira coordenada para realizar uma ação. Essas sinergias são importantes para reduzir a complexidade dos movimentos, facilitando a ativação muscular de forma mais eficiente. Os reflexos já trazem sinergias básicas características da espécie (ex. reflexo da marcha) que facilitam a realização de movimentos voluntários no futuro. 

3. São indicadores do funcionamento do sistema nervoso. Reflexos ausentes, exagerados ou com assimetria significativa (ex. no reflexo palmar) podem indicar disfunções e exigem avaliação especializada. (Confira esse vídeo da Universidade Aberta do SUS com a UFMA.) 

Essas funções tanto de sobrevivência quanto de preparação para outros movimentos permite que os reflexos sejam vistos como um "kit nascimento" — um conjunto de movimentos programados geneticamente que asseguram a sobrevivência e o desenvolvimento inicial do bebê (Barela, 2006). 

Os reflexos surgem e desaparecem em momentos típicos ao longo do primeiro ano de vida (Fig. 3). Com a maturação do sistema sensório-motor e o aumento do controle motor, eles vão sendo substituídos por movimentos voluntários. A fase termina com o aparecimento do primeiro movimento voluntário (Clark & Metcalfe, 2002) ou com o desaparecimento do último reflexo (Gallahue et al., 2013; Goodway et al., 2020). A partir daí, o bebê começa a interagir intencionalmente com o ambiente. Este é o fim do período reflexo e o início do período dos movimentos pré-adaptativos (ou rudimentares, conforme a metáfora da ampulheta), que veremos em outro texto.

Fig. 3 – Tabela com indicação de alguns reflexos primitivos e posturais e seus momentos típicos de ocorrência. Os quadros pretos indicam os momentos mais comuns, e os cinza períodos possíveis de manifestação. Os asteriscos indicam manifestação pré-natal. 

 E você? Já conhecia essas características do período reflexo? Já ouviu ou falou que “o bebê estava fazendo língua”? Alguma parte te chamou a atenção? Comente aqui — vamos trocar experiências e continuar subindo a montanha — juntos!

 

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 Referências 

Foto de capa (bebê na água): Casteel, S. Underwater Babies. New York: Little, Brown and Company. 2015. 112 p. 

1. Barela, J. A. Exploração e seleção definem o curso de desenvolvimento motor. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, v. 20, n. 5, p. 111-113, 2006 

2. Clark, J. E., & Metcalfe, J. S. (2002). The mountain of motor development: A metaphor. In J. E. Clark & J. H. Humphrey (Eds.), Motor development: Research and reviews (Vol. 2, pp. 163-190). Reston, VA: National Association for Sport and Physical Education. 

3. Gallahue D.L.; Ozmun J.C.; Goodway, J.D. Compreendendo o Desenvolvimento Motor, 7ºed., Porto Alegre: Artmed, 2013. 

4. Goodway, J. D.; Ozmun, J. C.; Gallahue, D. L.; (2020) Understanding motor development: Infants, children, adolescents, adults, 8. ed. Burlington : Jones & Bartlett Learning . 

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