3 - Períodos motores: movimentos reflexos
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Fig. 1 – Ilustração adaptada da montanha do desenvolvimento (Clark & Metcalfe, 2002) com destaque do período
dos movimentos reflexos.
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Os movimentos dessa fase são de dois tipos: espontâneos e reflexos propriamente ditos (Fig. 02). Ambos são involuntários (não intencionais) e estereotipados (ocorrem sempre da mesma forma).
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Fig. 2 – Exemplos de movimentos do período reflexo. 1. Movimento espontâneo da língua, 2. Reflexo da marcha, 3. Reflexo de moro, 4. Reflexo de sucção (aqui estimulado pelo próprio bebê). |
Os movimentos espontâneos surgem sem estímulo externo e sem relação com o ambiente. É comum vermos bebês empurrando as pernas alternadamente, balançando os braços ou movimentando a boca como se balbuciassem, ou colocando e retirando a língua. Parece proposital, mas não é. “Olha, ele está fazendo língua pra mim!” — Não, ele não está fazendo língua para você; está apenas realizando um movimento espontâneo.
Enquanto os movimentos espontâneos ocorrem sem relação com o contexto, os movimentos reflexos são sempre resposta a estímulos externos, e dividem-se em reflexos posturais e reflexos primitivos. Os posturais ajudam na orientação do corpo no espaço e contra a gravidade. Um exemplo é o reflexo da marcha: quando o bebê, com apoio, encosta os pés no chão, ele flexiona e estende as pernas como se estivesse andando. Quando o estímulo cessa, o movimento também cessa.
Os reflexos primitivos estão ligados à sobrevivência — como o reflexo de sucção (ao tocar a boca, o bebê suga – alimentação) e o reflexo de Moro (ao sentir que está caindo, o bebê abre e fecha os braços – proteção). O reflexo de Moro pode ser provocado ao apoiar o bebê no antebraço e simular uma queda.
Mesmo involuntários e estereotipados, os movimentos do período reflexo são essenciais para o desenvolvimento motor. Três aspectos importantes:
1. Iniciam o “diálogo” do bebê com o mundo e ajudam a estabelecer relações sensório-motoras básicas, que envolvem a interação entre informações sensoriais (visuais, táteis, sinestésicas, etc.) e a produção de movimentos. Por exemplo, a relação entre a força na mão e a pressão de objetos, ou entre a informação visual e a posição do corpo no espaço.
2. Promovem o fortalecimento muscular, e contribuem para a formação de sinergias musculares – conjuntos funcionais de músculos e articulações que trabalham de maneira coordenada para realizar uma ação. Essas sinergias são importantes para reduzir a complexidade dos movimentos, facilitando a ativação muscular de forma mais eficiente. Os reflexos já trazem sinergias básicas características da espécie (ex. reflexo da marcha) que facilitam a realização de movimentos voluntários no futuro.
3. São indicadores do funcionamento do sistema nervoso. Reflexos ausentes, exagerados ou com assimetria significativa (ex. no reflexo palmar) podem indicar disfunções e exigem avaliação especializada. (Confira esse vídeo da Universidade Aberta do SUS com a UFMA.)
Essas funções tanto de sobrevivência quanto de preparação para outros movimentos permite que os reflexos sejam vistos como um "kit nascimento" — um conjunto de movimentos programados geneticamente que asseguram a sobrevivência e o desenvolvimento inicial do bebê (Barela, 2006).
Os reflexos surgem e desaparecem em momentos típicos ao longo do primeiro ano de vida (Fig. 3). Com a maturação do sistema sensório-motor e o aumento do controle motor, eles vão sendo substituídos por movimentos voluntários. A fase termina com o aparecimento do primeiro movimento voluntário (Clark & Metcalfe, 2002) ou com o desaparecimento do último reflexo (Gallahue et al., 2013; Goodway et al., 2020). A partir daí, o bebê começa a interagir intencionalmente com o ambiente. Este é o fim do período reflexo e o início do período dos movimentos pré-adaptativos (ou rudimentares, conforme a metáfora da ampulheta), que veremos em outro texto.
Fig. 3 – Tabela com indicação de alguns reflexos primitivos e posturais e seus momentos típicos de ocorrência. Os quadros pretos indicam os momentos mais comuns, e os cinza períodos possíveis de manifestação. Os asteriscos indicam manifestação pré-natal.
E você? Já conhecia essas características do período reflexo? Já ouviu ou falou que “o bebê estava fazendo língua”? Alguma parte te chamou a atenção? Comente aqui — vamos trocar experiências e continuar subindo a montanha — juntos!
Referências
Foto de capa (bebê na água): Casteel, S. Underwater Babies. New York: Little, Brown and Company. 2015. 112 p.
1. Barela, J. A. Exploração e seleção definem o curso de desenvolvimento motor. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, v. 20, n. 5, p. 111-113, 2006
2. Clark, J. E., & Metcalfe, J. S. (2002). The mountain of motor development: A metaphor. In J. E. Clark & J. H. Humphrey (Eds.), Motor development: Research and reviews (Vol. 2, pp. 163-190). Reston, VA: National Association for Sport and Physical Education.
3. Gallahue D.L.; Ozmun J.C.; Goodway, J.D. Compreendendo o Desenvolvimento Motor, 7ºed., Porto Alegre: Artmed, 2013.
4. Goodway, J. D.; Ozmun, J. C.; Gallahue, D. L.; (2020) Understanding motor development: Infants, children, adolescents, adults, 8. ed. Burlington : Jones & Bartlett Learning .




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