4 - Períodos motores: movimentos pré-adaptativos
Vamos avançar um pouco mais no processo de desenvolvimento motor!
Todo o desenvolvimento motor é fascinante: as mudanças nos padrões, a aquisição de novas habilidades… Mas neste texto, vamos abordar um período particularmente marcante. Ele é curto, mas suas transformações são rápidas e os padrões motores despertam expectativas e encantamento. Quem nunca conversou com uma mãe ou um pai que comentou: “Acredita que ele rolou na cama ontem!” ou “Já está engatinhando!”, ou ainda se perguntou: “Será que vai demorar muito para andar?” É dessas conquistas motoras que iremos tratar. Vamos, então, ao período dos movimentos pré-adaptativos (Clark & Metcalfe, 2002) — ou "rudimentares", na metáfora da ampulheta (Gallahue et al., 2013).
Esse período (fig. 01) é caracterizado pelo surgimento dos primeiros movimentos voluntários. Ele começa após o nascimento e se estende até aproximadamente os 15 meses, com o início da marcha independente. O termo "pré-adaptativo" refere-se ao fato de que os movimentos deste período formam um repertório motor relativamente simples, limitado e ainda insuficiente para lidar com a complexidade das demandas motoras humanas (Clark & Metcalfe, 2002). Essas limitações, no entanto, não diminuem sua beleza e importância. Karl Newell, renomado pesquisador da área, chegou a propor que os movimentos desse período é que deveriam ser chamados de "fundamentais" (Newell, 2020). Mas essa discussão fica para outro momento. Vamos seguir com a terminologia convencional e explorar alguns exemplos de movimentos desse período, seus momentos típicos de surgimento e suas funções, ou metas, no desenvolvimento.
O surgimento dos movimentos pré-adaptativos segue uma sequência típica da espécie, fortemente influenciada por fatores genéticos e evolutivos, e com pouca influência sociocultural. Embora haja variações culturais entre sociedades, essas não alteram significativamente a sequência universal de aparecimento dos movimentos.
São evidentes as direções céfalo-podálica (da cabeça para os pés) e médio-lateral (do centro do corpo para as extremidades). Primeiro, o bebê ergue a cabeça, depois adquire controle do tronco e, por fim, das pernas — por isso a marcha é o último padrão motor desse período. Do ponto de vista médio-lateral, o controle começa pelo eixo corporal, segue para os braços e só depois chega às mãos e dedos.
Os movimentos desse período se dividem em três grupos: estabilizadores (controle postural), locomotores e manipulativos (fig. 02). Os movimentos estabilizadores, ou de controle postural, são fundamentais. Primeiro o bebê estabiliza o pescoço, depois o tronco — o que permite sentar-se — e, em seguida, quadris e pernas, possibilitando ficar em pé. Essa base de estabilidade é essencial para que movimentos mais complexos ocorram. Os movimentos locomotores incluem arrastar, engatinhar e andar, e são voltados à exploração do espaço. Já os movimentos manipulativos começam com o alcance de objetos, seguidos pelas ações de segurar e, depois, soltar.
Apesar da forte influência filogenética (isto é, das características da espécie humana) e da baixa interferência sociocultural, a prática é indispensável nesse período. Um exemplo relacionado aos movimentos manipulativos, ajuda a ilustrar essa relação entre predisposição inata e prática: é comum vermos bebês deitados de barriga para cima tentando alcançar brinquedos pendurados sobre o berço. Eles estende o braço para alcançar o brinquedo, mas não conseguem segurar; batem as mãos nele e o brinquedo balança mudando de posição. O desafio é tão grande que é comum vê-los resmungar, e balançar os bracinhos e as perninhas como que “indignados” com aquele brinquedo fujão. Enfim, depois de alguns dias tentando, ou seja, praticando, eles começam a conseguir segurar o brinquedo. A sequencia segue um padrão filogenético, mas o seu desenrolar requer prática. Essa relação do aspecto inato com a prática vale para todos os padrões.
Como vimos, o período pré-adaptativo vai do nascimento até cerca de 15 meses. Cada padrão motor, no entanto, surge em faixas temporais específicas, como ilustrado na figura 03. Observe que não há uma idade exata para cada aquisição, mas sim um intervalo. A ordem geral segue a lógica céfalo-podálica, indo do controle do pescoço à marcha independente. O andar independente é o marco final do período (Clark & Metcalfe, 2002) e representa as duas grandes metas do desenvolvimento pré-adaptativo: superação da gravidade e independência motora.
Essa independência se dá tanto na locomoção quanto na manipulação, e envolve funções básicas como deslocar-se no espaço e alimentar-se. Quando o bebê conquista essas capacidades, passa a se tornar um verdadeiro ator no mundo, capaz de se movimentar e de alimentar-se por conta própria — e que ator ele se torna! (fig. 04)
E você, já sabia que esses movimentos tão familiares faziam parte de um conjunto específico de aquisições motoras? Já conhecia as características do período pré-adaptativo? Já se viu ou viu alguém na expectativa por um desses marcos, tipo “Já está andando!” ou “Ainda não engatinha…”? Comente aqui — vamos conversar e continuar subindo a montanha juntos!
Foto de capa: www.tuasaude.com
Adolph, K. E., Hoch, J. E., & Cole, W. G. (2018). Development (of walking): 15 suggestions. Trends in Cognitive Sciences, 22, 699-711.
Franchak, J. M., & Adolph, K. E. (2024). An update of the development of motor behavior. WIREs Cognitive Science, 15(6), e1682. https://doi.org/10.1002/wcs.1682
Clark, J. E., & Metcalfe, J. S. (2002). The mountain of motor development: A metaphor. In J. E. Clark & J. H. Humphrey (Eds.), Motor development: Research and reviews (Vol. 2, pp. 163-190). Reston, VA: National Association for Sport and Physical Education.
Gallahue D.L.; Ozmun J.C.; Goodway, J.D. Compreendendo o Desenvolvimento Motor, 7ºed., Porto Alegre: Artmed, 2013.
Newell, K. M. (2020). What are fundamental motor skills and what is fundamental about them? Journal of Motor Learning and Development, 8(2), 280-314.


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