5 - Períodos motores: movimentos fundamentais

 

                                                                                                                                                                
Vamos continuar nossa jornada do desenvolvimento motor! Neste texto, chegamos a um período particularmente importante: o das habildiades motoras fundamentais. Diferente dos períodos anteriores — os movimentos reflexos e os pré-adaptativos — marcados por forte influência filogenética, aqui os aspectos ontogenéticos, específicos de cada indivíduo, ganham mais destaque.

Neste texto, vamos explorar os padrões motores desse período, os momentos típicos de surgimento, suas funções desenvolvimentistas e algumas considerações práticas para estimulação. Seguiremos usando a metáfora da Montanha do Desenvolvimento (Clark & Metcalfe, 2002) como base (Fig. 1), mas com apoio também da Ampulheta Triangulada (Gallahue et al., 2013), que contribui com detalhes interessantes sobre estágios de aquisição. Vamos subir mais um trecho juntos?

 

 
 Fig. 1 – Período dos movimentos fundamentais, ou das habilidades motoras fundamentais (HMF), ilustrado na montanha do desenvolvimento. É o terceiro, e último período de base, antes de iniciar as especializações motoras.

 

O que são as habilidades motoras fundamentais?

O período das habilidades motoras fundamentais (HMF) — também chamadas de habilidades motoras básicas (Oliveira et al., 2008) — normalmente começa com a corrida, cerca de seis meses após os primeiros passos. Isso ocorre até os dois anos de idade. A partir d’aí, o repertório motor da criança aumenta muito em variedade e complexidade, podendo ser dividido em três grandes grupos: locomoção, controle de objetos e estabilização (Clark & Metcalfe, 2002; Donnely et al., 2014; Seefeldt, 1980; Ulrich, 2013; Copetti & Valentini, 2023).

·         Locomoção - envolve deslocamentos do corpo no espaço e são divididos em dois grupos: padrões simétricos e assimétricos. Os padrões simétricos, como a caminhada, são regulares e contínuos. Já os assimétricos, como o salto horizontal ou o “skip”, são mais complexos e indicam avanços na organização motora.

·         Controle de objetos - inclui habilidades de projeção (como chutar ou arremessar) e de interceptação (como receber ou rebater). Estes padrões também podem ser denominados como coordenativos de integração, ou habilidades de manipulação.

·         Estabilização - diz respeito ao controle postural, essencial tanto para o equilíbrio estático (como ficar em um pé só), quanto para o dinâmico (como caminhar sobre uma linha). Também inclui habilidades que desafiam a orientação gravitacional, como o rolamento (cambalhota) e o apoio invertido (plantar bananeira).

Vale notar que, às vezes, os movimentos estabilizadores não aparecem como uma categoria à parte (Clark & Metcalfe, 2002; Gallahue et al. 2013), por serem entendidos como pré-requisitos para as demais habilidades. A razão é simples, se não há estabilização, não é possível arremessar, correr, saltar, etc. Entretanto, considero importante olhar para os padrões de estabilização de forma específica, uma vez que há padrões bem particulares que serão melhor estimulados na prática quando compreendidos e explorados dentro de suas particularidades (ex. rolamento, apoio invertido).

 

Estágios de desenvolvimento das habilidades

Na Ampulheta Triangulada encontramos o período dos movimentos fundamentais dividido em estágios progressivos (fig. 2): Inicial, elementares/emergentes, e proficientes.

 

Fig. 2 – Ampulheta Triangulada com destaque na fase das HMF, e detalhes dos estágios e idades aproximadas da fase completa e de cada estágio.

 

  • Inicial: é o primeiro estágio das HMF e caracteriza-se pelo uso quase exclusivo do segmento efetor. Exemplo: no arremesso (fig. 3a), a criança concentra o movimento no braço que arremessa; o outro braço, tronco e pernas participam muito pouco da ação. 
  • Emergentes/elementares: representa as primeiras mudanças significativas. A criança começa a usar outros segmentos corporais, como o tronco e as pernas. Dependendo da HMF pode haver mais de um estágio emergente. No arremesso, por exemplo, são três enquanto no salto horizontal são dois (Fig. 3ª e 3b).

 

 

Fig. 3 – a) detalhamento dos estágios de mudança do padrão de movimento do arremesso por cima do ombro. b) detalhamento dos estágios de mudança do padrão de movimento do salto horizontal. (Adaptado de Gallahue et al., 2013)

  • Proficiente: Nesse estágio observam-se a formação de uma estrutura coordenativa robusta, e a eficiência na integração sensório-motora para a execução da habilidade. Por exemplo, no chute verifica-se uma participação coordenada de todos os segmentos corporais no intuito de se obter a maior força. Juntamente a isso há uma integração sensório-motora visual refinada para a interceptação da bola – observe o olhar fixo na bola durante toda a execução (fig. 4).
 

Fig. 4 - Exemplo do padrão maduro da habilidade chute. (É um adulto, eu sei! Mas o padrão fundamental, é padrão fundamental independentemente da idade, sexo e cultura. Compare com as ilustrações dos livros e veja.)

 

Atingir o estágio proficiente é essencial! É esse estágio que permitirá à criança se apropriar de forma competente das atividades motoramente mais complexas como jogos e esportes. Sem adquirir proficiências nas HMF, essa apropriação será impedida ou bastante prejudicada, e, consequentemente, comprometerá o período seguinte de desenvolvimento – contexto específico. Falo sobre essa transição com mais detalhes no texto sobre a barreira de proficiência.

 

Faixa etária e tempo de desenvolvimento

Na ampulheta triangulada há uma referência temporal – etária – bastante marcante para a aquisição das HMFs (Fig. 2). Ela indica que, com estímulos adequados, é possível alcançar o estágio proficiente na maioria das habilidades até os 7 ou 8 anos. Mas é importante considerar duas coisas:

 

1. Cada habilidade tem uma condição temporal: algumas são adquiridas mais cedo, outras demandam mais tempo. Há também diferenças entre meninos e meninas (Fig. 5).

2.   O tempo não causa desenvolvimento: apesar de serem apresentadas referências temporais para o desenvolvimento (idade, meses, anos), o tempo não causa desenvolvimento, ele é apenas uma referência (lembre-se disso!). O que de fato provoca o desenvolvimento são mudanças internas (como a maturação do sistema nervoso central) e a prática adequada. No caso específico das HMF, a estimulação/prática é um elemento muito importante e, infelizmente, muitas vezes realizada de forma inadequada (Oliveira et al., 2008; Gallahue et al., 2013), o que traz prejuízos ao desenvolvimento motor. Tratarei especificamente da prática em outro momento.

 

Fig. 5 – características temporais de algumas HMFs, e diferenças entre meninos e meninas

 

Diversificação, não especialização

 
A metáfora da Montanha (Fig. 6) ilustra algo importantíssimo do período dos movimentos fundamentais que é a necessidade de diversificação do repertório motor. O período dos movimentos fundamentais serve de ponte entre a base ampla do desenvolvimento motor e os picos específicos das modalidades esportivas e culturais. Por isso, aqui é tempo de diversidade motora, e não de especialização. Em quais habilidades especificamente? Na maior quantidade possível delas! E não somente isso, mas também a maior quantidade possível de variações de experiências em uma mesma habilidade e a combinações entre elas quando a criança já conseguir acoplá-las.

 

 

Fig. 6 – ilustração da metáfora da Montanha do Desenvolvimento indicando a necessidade de expansão do repertório motor a partir da variedade de HMFs com os eixos x e y, para depois subir ao pico (eixo z).

 

Isso pode levar a uma questão: “Então não se pode colocar as crianças em uma escolinha de esportes entre os 2 e 7 anos?” Pode sim! Mas o foco não deve ser especializar em uma modalidade, e sim explorar diferentes padrões motores e variações destes padrões. Por exemplo, adquiri o padrão de chute, de rolamento, de arremesso, etc., bem como chutar diferentes bolas, com ou sem calçado; fazer rolamentos em direções variadas, para frente e para trás; arremessar de diferentes distâncias, e assim por diante.

A variedade é o que fortalece a base motora e prepara a criança para atuar com autonomia no mundo dos esportes, jogos, danças, lutas e brincadeiras; é o que permite que ela suba a montanha com desenvoltura, e também tenha opção de escolha de qual montanha quererá subir. Para aprofundar esse assunto de diversificação e especialização, recomendo o texto de Tani et al. (2012) sobre ensino de esportes na infância.

Aproveitando, variedade de experiências motoras não é simplesmente fazer um monte de coisas, mas ter várias experiências com atividades que sejam adequadas, devidamente planejadas, e que sejam apresentadas em uma quantidade suficiente para causar modificações no comportamento – desenvolvimento requer aprendizagem, e aprendizagem requer consistência de prática.

 

Para concluir (por enquanto)

Neste texto, vimos o período dos movimentos fundamentais, os grupos de HMF, seus estágios de desenvolvimento, as variações temporais na aquisição e a importância da estimulação/prática. Este período é decisivo para o desenvolvimento da criança, em termos motores obviamente, mas também em outros âmbitos como cognitivo, e afetivo-social — e é também onde a intervenção educativa, especialmente na Educação Física, tem um papel determinante.

E você? Já conhecia essas características do período dos movimentos fundamentais? Já viu a diferença que faz a variedade motora e sabia do risco de uma especialização precoce? Comente aqui — vamos conversar e continuar subindo a montanha juntos!

 

 

Referências 

Foto de capa:  Freepik, wombatzaa
  
Clark, J. E., & Metcalfe, J. S. (2002) The mountain of motor development: A metaphor. In J. E. Clark & J. H. Humphrey (Eds.), Motor development: Research and reviews (Vol. 2, pp. 163-190). Reston, VA: National Association for Sport and Physical Education.
 
Copetti, F.; Valentini, N.C. (2023) Fundamental motor skills. [Mobile app]. Play store.

Donnely, F.C.; Mueller, S.; Gallhue, D.L. (2016) - Developmental Physical Education for All Children: Theory into Practice. 5th ed. Champaign, IL: Human Kinetics.
 
Gallahue D.L.; Ozmun J.C.; Goodway, J.D. (2013) Compreendendo o Desenvolvimento Motor, 7ºed., Porto Alegre: Artmed.
 
Oliveira, J. A., Perotti Júnior, A., & Tani, G. (2008). Estudo do desenvolvimento motor e a intenção profissional em educação física. In Pesquisa em comportamento motor: a intervenção profissional em persectiva. São Paulo: EFP/EEFEUSP.
 
Seefeldt, V. (1980). Developmental motor patterns: Implications for elementary school physical education. In C. Nadeau, W. Holliwell, K. Newell, & G. Roberts (Eds.), Psychology of motor behavior and sport (pp. 314-323). Champaign, IL: Human Kinetics.
 
Tani, G., Basso, L., & Corrêa, U. C. (2012). O ensino do esporte para crianças e jovens: considerações sobre uma fase do processo de desenvolvimento motor esquecida. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, 26(02), 339-350.

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