6 - Da Teoria à Prática: avaliar as HMFs e melhorar as itervenções

 


Se as habilidades motoras fundamentais (HMFs) têm importância ímpar no desenvolvimento motor, e se há o risco de não serem adquiridas em nível proficiente, torna-se essencial analisá-las e acompanhá-las. Para isso, entra em cena a avaliação.

A avaliação das HMFs possibilita três funções principais:

1.    Verificar o nível de desenvolvimento motor da criança;

2.    Detectar atrasos ou deficiências;

3.    Monitorar o progresso das crianças e a eficácia das intervenções.

Esses três pontos ajudam o professor a organizar o processo de ensino-aprendizagem de forma mais ajustada: respeitando a condição atual do aluno e, ao mesmo tempo, potencializando avanços.

Existem alguns testes para avaliar as HMFs. Eles variam quanto às habilidades observadas, aos parâmetros de análise. Vou destacar dois instrumentos bastante usados na literatura: o TGMD-3 e a sequência desenvolvimental de Gallahue (1982), com versões mais atualizadas (Gallahue et al. 2013).

  

O TGMD-3

O TGMD-3 (Ulrich, 2013) é um protocolo estruturado e validado que avalia 13 HMFs — 7 de locomoção e 6 de manipulação (controle de bola). Ele conta com fichas organizadas para registro, descrevendo a habilidade, materiais necessários, instruções e critérios de desempenho (fig. 01).

Cada critério recebe pontuação binária (0 = ausência; 1 = presença). Após a avaliação, os pontos são somados e transformados em escores normativos, permitindo classificações gerais do desenvolvimento motor.

Por ser padronizado, o TGMD-3 possibilita:

·         acompanhar a evolução individual;

·         comparar alunos entre si e com padrões normativos;

·         reduzir a influência de diferenças entre avaliadores (com pouco treino já se aplica bem).




Figura 01. Ilustração da ficha de organização dos dados do TGMD para movimentos de locomoção.

 

Sequência desenvolvimental de Gallahue

A sequência desenvolvimental foi proposta inicialmente em 1982, e tem sido atualizada a partir dos avanços no conhecimento sobre o desenvolvimento motor (Gallahue & Ozmun, 2003; Gallahue et al. 2013). Ela descreve estágios de execução das HMFs, tendo o estágio maduro/proficiente como meta.

Exemplo: na corrida, avaliam-se elementos de braço, tronco e pernas. Além das descrições, há ilustrações que tornam visíveis os padrões motores em cada estágio (fig. 02).

Por não ser um teste padronizado, a sequência dificulta comparações entre avaliadores. Ainda assim, ela é extremamente útil para análise pedagógica. Gallahue et al. (2013) ressaltam a importância de organizar o ambiente e adequar as tarefas para favorecer a observação dos padrões.

 

 
 Figura 02. Sequência desenvolvimental da corrida (Gallahue et al., 2013) com descrição e ilustração esquemática. Interessante notar que as ilustrações são bastante representativas de condições reais.

 

Além do TGMD e da sequência de Gallahue há outros testes disponíveis, mas sempre relacionados aos dois. Por exemplo, o FMS (fundamental motor skills – Copetti & Valentini, 2023) que está disponível em aplicativo andróide e traz roteiro completo e fundamentação teórica. Vale a pena conferir.


FMS (fundamental motor skills – Copetti & Valentini, 2023 – Google play)

  

Como escolher a avaliação?

A escolha depende do objetivo:

·         Para pesquisa: usar protocolos validados (como TGMD-3), favorecendo comparações e garantindo rigor científico.

·         Para intervenção pedagógica: mesmo instrumentos não validados, como a sequência desenvolvimental, podem atender bem. Nesses casos, é recomendável padronizar os procedimentos de aplicação  para permitir comparações futuras.

Para as intervenções pedagógicas, que são o cerne aqui, também é preciso considerar fatores práticos: número de crianças, tempo disponível e espaço físico. Esses aspectos podem determinar a escolha da avaliação ou mesmo requerer ajustes no modo de aplicação, inclusive em alterações no uso de testes como o TGMD-3.

“Ah, mas alterar os testes descaracteriza o instrumento”, alguns diriam. Eu entendo diferente: na prática pedagógica, o teste precisa servir ao professor — e não o contrário. Isso não significa “fazer de qualquer jeito”, mas sim adaptar com responsabilidade.

Exemplo: se o objetivo da intervenção é acompanhar apenas corrida, salto horizontal e arremesso por cima, o professor pode usar a sequência desenvolvimental ou os critérios do TGMD-3 apenas para essas habilidades, e desconsiderar as outras. Cuidados importantes nesses casos:

·         seguir exatamente as instruções para as habilidades escolhidas;

·         não inferir o desenvolvimento motor global a partir desse recorte parcial.

Em resumo: conheça as formas de avaliação e use-as, e sempre escolha a forma que realmente contribua para alcançar os objetivos da intervenção (retomarei essa relação objetivo-avaliação no texto sobre backward design).

 

Para concluir

Neste texto, apresentei a avaliação das HMFs, destacando dois referenciais amplamente utilizados e discutindo critérios práticos para escolha. Para professores de Educação Física, avaliar as HMFs é fundamental: a partir disso é possível planejar intervenções que promovam ganhos motores significativos, especialmente entre os 3 e 10 anos.

Esse processo garante que as crianças alcancem a proficiência, rompam a barreira de proficiência (Seefeldt, 1980) e se apropriem de jogos, esportes, danças e outras práticas mais complexas.

E você? Já conhecia esses instrumentos de avaliação? Já parou para refletir sobre a importância deles?

Deixe seu comentário — vamos conversar e continuar caminhada juntos!

 

Pontos chave do texto:

·         Avaliar HMFs é essencial para verificar nível de desenvolvimento motor, detectar atrasos e monitorar progressos.

·         O TGMD-3 é padronizado, validado e permite comparações normativas confiáveis.

·         A sequência desenvolvimental de Gallahue mostra estágios e facilita a análise pedagógica, mesmo sem padronização.

·         A escolha do teste depende do objetivo: pesquisa exige rigor; intervenção pode usar adaptações bem estruturadas.

·         Avaliar bem as HMFs favorece intervenções mais eficazes, ajuda a romper a barreira de proficiência e prepara crianças para esportes, danças e lutas.

 

 

Referências

 

  1. Copetti, F.; Valentini, N.C. (2023) Fundamental motor skills. [Mobile app]. Play store.
  2. Gallahue, D.L. (1982). Understanding Motor Development in Children. Canada: John Wiley & Sons,Inc. 
  3. Gallahue D.L.; Ozmun J.C.; Goodway, J.D. (2013) Compreendendo o Desenvolvimento Motor, 7ºed., Porto Alegre: Artmed.
  4. Seefeldt, V. (1980). Developmental motor patterns: Implications for elementary school physical education. In C. Nadeau, W. Holliwell, K. Newell, & G. Roberts (Eds.), Psychology of motor behavior and sport (pp. 314-323). Champaign, IL: Human Kinetics.
  5. Ulrich DA. TGMD-3: test of gross motor development. 3rd ed. Austin, Texas: Proed; 2019.

Comentários

Mais visitadas

Quem sou eu?

2 – Metáforas do Desenvolvimento Motor: a montanha do desenvolvimento

Preâmbulo: a “trivialidade” dos movimentos

1 – Metáforas do Desenvolvimento Motor: a ampulheta triangulada

Vamos começar!