7 - Sem Proficiência Não Há Progresso: por que as HMFs decidem o futuro motor das crianças

 



Nesse texto, vamos explorar a importância das habilidades motoras fundamentias (HMF) para a continuidade do desenvolvimento motor, e a participação nas práticas mais complexas que exigem maior sofisticação motora. O objetivo do período dos movimentos fundamentais é criar uma base motora ampla que permita ao indivíduo avançar em seu desenvolvimento motor e atingir seus objetivos.

 

O papel da proficiência nos movimentos fundamentais

Um pré-requisito do período dos movimentos fundamentais é expandir o repertório motor. Quanto mais habilidades motoras fundamentais (HMFs) a criança adquirir, melhor. No entanto, para adquirir não basta experimentar ou vivenciar; adquirir requer prática intencional para alcançar proficiência nas HMF. A proficiência é essencial para que a habilidade seja efetivamente usada como base para outras ações, e permitindo o acoplamento de HMFs; um aspecto chave do desenvolvimento motor.

Vamos olhar para a avaliação das HMF para entender melhor esse ponto. Os testes como o TGMD (Ulrich, 2019) ou a sequência desenvolvimental (Gallahue et al., 2013), avaliam HMFs isoladas. Isso ocorre porque, durante o período fundamental, as HMFs são adquiridas de forma isolada mesmo.

Para testar isso, observe uma criança de aproximadamente 3 anos de idade. Ela já consegue correr e saltar, mas pode se confundir ao tentar combinar ambos. Marque uma linha no chão e peça para a criança correr e saltar o mais longe possível – se quiser envolvê-la mais, conte uma historinha de pular sobre um riacho ou algo semelhante. Você notará que ela corre rápido, mas ao chegar perto da linha, provavelmente parará bruscamente e depois saltará, sem uma transição fluida entre correr e saltar. Isso ocorre porque a proficiência em uma ou ambas HMFs ainda não foi alcançada. Sem proficiência, não há acoplamento e, sem acoplamento, não há progresso no desenvolvimento motor nem apropriação das práticas motoras mais complexas. Gallahue et al. (2013), vai propor que os estágio de desenvolvimento que segue à fase dos movimentos fundamentais é caracterizado por refinamento e acoplamento da HMFs.

Trazendo para o cotidiano escolar, é possível perceber sinais claros de que a criança ainda não atingiu a proficiência em uma HMF. Por exemplo: aquele aluno que corre, mas sempre para antes de saltar, mostra dificuldade em acoplar corrida e salto. Ou ainda a criança que tenta arremessar uma bola, mas movimenta basicamente só o braço, sem coordenação com o tronco e as pernas. Esses pequenos sinais ajudam o professor a identificar que a barreira de proficiência ainda não foi superada — e que o trabalho deve-se centrar nas HMFs.

A proficiência nas HMFs é essencial para a participação em práticas especializadas que exigem a combinação de várias habilidades. Se uma criança não atinge o estágio proficiente em HMFs como correr, saltar, arremessar, chutar, ela terá dificuldade – se não impossibilidade – em engajar-se em atividades mais complexas como danças, esportes e jogos que requerem acoplamentos.

Quando as habilidades fundamentais não estão bem consolidadas, a transição para os esportes se torna uma grande dificuldade. Pense no vôlei: se a criança não domina a habilidade de arremesso por cima do ombro, terá dificuldade em aprender o saque por cima (fig. 01). Ou no futebol: sem controle básico de corrida e chute, ela dificilmente se sentirá à vontade em um jogo coletivo. Isso mostra que o trabalho com as HMFs não é um passo opcional, mas um caminho necessário para que a criança possa realmente se apropriar das modalidades esportivas.


Fig. 01 - O padrão de arremesso por cima é importante para a aquisição de uma série de habilidades esportivas que requeiram o padrão cruzado de coordenação braço-tronco-perna.

 

A Barreira de proficiência: O que é e seu significado para o desenvolvimento motor

Essa dificuldade foi descrita por Seefeldt (1980) como a barreira de proficiência: um nível crítico de competência motora. Superar essa barreira é condição para aplicar os movimentos fundamentais em contextos mais sofisticados, como esportes, danças e lutas.

 

Fig. 02 - Montanha do desenvolvimento (Clark & Metcalfe, 2002)


A metáfora da Montanha do Desenvolvimento (Fig. 02) ajuda a visualizar: após o período dos movimentos fundamentais, existe uma barreira que precisa ser transposta. Caso contrário, o desenvolvimento fica comprometido e a criança encontra dificuldades para se engajar em práticas físicas e culturais que exigem maior sofisticação motora.

 

 Fig. 03 - Manual de Educação Física escolar canadense.
 

Manuais de educação física escolar reforçam esse ponto. Habilidades como correr ou arremessar não são apenas movimentos isolados, mas portas de entrada para múltiplas práticas. Se não são aprendidas com proficiência, limitam a participação e o progresso (Fig. 03).

Já parou pra pensar que o problema de um aluno ter dificuldades em aprender habilidades esportivas pode estar no desenvolvimento das HMFs, e não em algum aspecto da prática, e que se isso não for detectado e resolvido os esforços do professor para o ensino dos esportes pode ser frustrantes tanto para o aluno quanto para o próprio professor?

 

Para encerrar (por hora...) 

A proficiência nas habilidades motoras fundamentais não é "apenas" uma etapa do desenvolvimento motor — é o alicerce que sustenta todo o percurso da criança rumo às práticas mais complexas da cultura de movimento. Quando essa base não é consolidada, a participação nos esportes, nas danças, nas lutas e nos jogos se torna limitada e, muitas vezes, frustrante. Para o professor de Educação Física, compreender essa lógica é decisivo: identificar, estimular e fortalecer as HMFs é garantir que cada criança possa avançar com autonomia, confiança e competência.


Pontos-chave para não esquecer:

1. Sem proficiência nas HMFs, não há acoplamento — e, sem acoplamento, não há avanço para práticas motoras complexas.

2. A dificuldade das crianças nos esportes muitas vezes não está na metodologia, mas nas habilidades fundamentais não consolidadas.

3. A transposição da “barreira de proficiência” é condição indispensável para que a criança participe plenamente da cultura de movimento.

 


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